Saldos & Selvagens

Escrito por

Nesta edição do  “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona relata a Black Friday como quem descreve um safári urbano: gente à solta, montes de roupa agressivos e promoções capazes de transformar adultos em gladiadores. Uma crónica leve sobre o único dia do ano em que perdemos a dignidade… com “desconto”.


A nossa espécie enlouquece com muita coisa: pandemias, vídeos de três segundos, personagens favoritos que morrem sem aviso… mas nada faz o ser humano perder totalmente o juízo como a Black Friday.

Sinceramente, eu já desisti de centros comerciais ao fim-de-semana. E em época de saldos? Só se me oferecerem um seguro de vida e um capacete.

Os preços baixam, sim, maravilha. Mas basta pôr um pé numa loja nesta altura e arrisco-me a ser engolida por uma maré humana à procura de uma camisa que ninguém precisava, ninguém gosta realmente, e que vai acabar esquecida com etiqueta, a chorar num cabide.

As lojas também sofrem. Num dia são espaços minimalistas, aesthetic, com vibe “IKEA showroom”. No dia seguinte, parecem o quarto de um adolescente depois de um apocalipse zombie: montes de roupa tão altos que deviam vir com um guia turístico incluído para escalar o “Everest dos Ténis”.

E façamos um minuto de silêncio por quem trabalha nestas lojas.
Eles olham para nós como quem pensa: “Já varri o corredor três vezes e continua a parecer que passou aqui um grupo de javalis hiperativos”.
E ainda têm de sorrir enquanto alguém chega ao caixa com cara de: “Eu lutei fisicamente por este cardigan, por favor honra o meu esforço”.

Depois há aquelas promoções tipo “leve 6, pague 3”.
Meus caros… ninguém precisa de seis seja do que for assim à maluca. Há closets com mais habitantes que aldeias, e metade da roupa foi usada só naquele jantar que “podia ser especial”… mas afinal foi só um jantar.

Eu sei, o Natal aproxima-se, os descontos piscam como luzes de árvore mal ligadas… mas vamos tentar um mood mais zen. Tipo criança ainda acordada depois da sua hora de dormir: quietinha, a respirar baixinho para não ser descoberta pelos pais.

Este é o espírito: compras, sim. Mas sem transformar o shopping numa recriação do Titanic versão Black Friday, toda a gente a correr atrás do último par de botas como se fosse o último bote (ou porta) salva-vidas.

A Black Friday passa num instante.
A falta de respeito e as nossas figuras… essas duram um bocadinho mais.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Escrito por: Rita Cardona

Editado por: Rodrigo Caeiro

Deixe um comentário