Nesta edição do “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona investiga o mistério nacional do Natal antecipado: essa epidemia em que renas surgem em outubro e adultos entram em modo duende hiperativo. Entre pressas, spoilers da própria vida e uma marquise que nunca pediu visitas do Pai Natal, a autora serve a crónica perfeita para quem precisa de rir… e abrandar.
Há tradições amorosas… e depois há esta mania de antecipar o Natal antes do Halloween. No dia 29/10 já tinha renas a piscar para mim no supermercado. Só faltava o aviso: “Perigo psicadélico, pode causar compras impulsivas de chocolate e licor”.
Eu até percebo as crianças. Para ganhar uma Barbie princesa-sereia-astronauta-coach que muda a cor do cabelo e ainda dá motivação, eu também montava a árvore em agosto. Agora, adultos a decorar a casa logo no pós-Halloween… nem os Elfos têm esse regime horário.
E atenção: eu adoro o outono/inverno e o Natal faz parte desse encanto. Só dispenso é que o senhor das barbas brancas chegue com dois meses de antecedência, ainda por cima por chaminés que a maior parte das casas portuguesas não têm. A marquise, coitada, não serve (faz perder a magia).
No fundo, isto é só sintoma da pressa geral.
Há pessoas tão apressadas que até parecem prontas a levantar voo para “a próxima vida”. Ouço muito o:
— “Só serei feliz quando tiver isto.”
Chegam ao isto, e trocam logo para o:
— “Afinal, só serei feliz quando alcançar aquilo.”
É o clássico ditado: “a ânsia de ter e o tédio de possuir”.
E depois há quem faça spoiler à própria vida: vê o final do filme antes do início, lê a última página do livro logo na loja… tudo por medo do “efeito surpresa”.
Meus amigos, eu entendo o trauma das avaliações não anunciadas, mas isto já é exagero.
No The Sims, claro, também salto logo para os 999.999.999€ na conta do meu boneco e construo a mansão dos sonhos, que até as Kardashians ficam com inveja.
O problema? Passadas umas horas já não toco no jogo.
Porque, lá está, perde a piada. A graça está em jogar, não em teletransportar para o fim do jogo.
Talvez o Natal seja só o exemplo mais fofinho desta maratona inacabável: a pressa de chegar antes de ser a altura. E no meio desta ânsia toda, esquecemo-nos do básico: viver também dá trabalho, mas é a única parte que realmente compensa.
Por isso, deixem lá o Natal em outubro para os centros comerciais. Nós fazemos melhor: respiramos, abrandamos e vivemos a história pela ordem certa: sem transformar novembro num sprint para o presépio e sem viver a vida como quem estaciona o trenó em segunda fila.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Freepik
Escrito por: Rita Cardona
Editado por: Rodrigo Caeiro


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