Confissões de um Paladar com Standards

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Nesta edição do “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona enfrenta um dos temas mais delicados da sociedade moderna: a relação entre humanos e comida, especialmente quando o humano é ela mesma. Esta é uma viagem ao estômago de alguém que só quer comer em paz… e talvez um bitoque sem surpresas existenciais.


Não sou esquisita. Sou “seletiva com classe.
O meu paladar é tipo detetor de metais, mas para ingredientes suspeitos. Apita a quilómetros de distância se sentir cheiro a feijão, queijo ou qualquer coisa “com um toque exótico”.

Quando conheço pessoas novas, evito o tema “comida”.
Basta eu dizer “não gosto de feijão” e sou olhada como se tivesse insultado a avó do indivíduo.
Antes fazia listas e listas do que não comia, agora revelo aos poucos, estilo séries daquela plataforma vermelha:
Temporada 1: Feijão.
Temporada 2: Ervilhas.
Spin-off: “Tudo o que vem do mar e ainda mexe.”

Quando vou a um restaurante, jogo pelo seguro.
Não estou ali para fazer experiências científicas com abacate, feijão-frade e romãs ao aroma de cheddar.
Se acerto num prato, é amor eterno.
O empregado já nem pergunta: “O habitual?”.
Sim, o habitual. Não estou aqui para aventuras, quero é comer e sair feliz, não emocionalmente abalada.

Mas se erro… acabou-se… acabou-se!
Bloqueio o restaurante em todo o lado: redes sociais, memória e até mapa mental.
Nem sou capaz de ouvir o nome do sítio sem ficar verde com o trauma que me foi servido.
Nem para um café passo à porta.
A vingança serve-se fria, e com bitoque de frango noutro sítio.

Depois vêm os críticos da mesa:
— “Outra vez a comer isso? Devias provar o peixinho!”
Não, obrigada. Se quisesse o peixinho, tinha pedido o peixinho.
Não preciso de coachs motivacionais à hora do jantar.

Por falar em alimentação proveniente do mar, lembro-me sempre da roda dos alimentos do sexto ano, aquele sonho utópico onde todos comiam equilibrado. Parecia simples: um bocadinho disto, outro daquilo, e ZÁS! Saúde eterna.
Na vida real, o prato português é 80% arroz, 10% carne e 10% óleo.
As leguminosas aparecem quando o frango acaba, e a fruta vive eternamente na fruteira, a ganhar pó e filosofia.

Por isso, criei a minha própria roda alimentar: Água com gás, pão, ovos e sossego.
Equilibra corpo e alma. E o melhor: não dá gases.

E depois há os restaurantes modernos… “Texturas reinventadas de legumes”?
Traduzindo: puré que fez Erasmus e voltou convencido.
E sobremesas com flores em cima?
Querido Chef, eu não preciso de estar em dúvida se são realmente para comer ou se servem apenas como decoração.

No fundo, só quero comer sem ter de decifrar poesia gastronómica.
Um prato que não me traia, um café que saiba a café e uma sobremesa que não custe metade do salário mínimo.

A vida já é confusa o suficiente, não preciso que o jantar também venha com dilemas existenciais.
Dêem-me o meu bitoque, talheres normais, guardanapo de papel, e prometo: Serei feliz, mastigando em silêncio e com dignidade.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Escrito por: Rita Cardona

Editado por: Rodrigo Caeiro

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