O mito da criminalidade portuguesa importada

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Nos últimos anos, uma ideia ganhou força em conversas de café e até em alguns discursos políticos: a de que o aumento da criminalidade em Portugal é consequência direta do aumento do número de imigrantes. A afirmação, ainda que apelativa na sua simplicidade, não resiste a uma análise séria dos dados disponíveis.

O que dizem os números

De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado pelo Ministério da Administração Interna, a criminalidade em Portugal tem-se mantido estável ou em ligeira descida nos últimos dez anos, mesmo com o aumento significativo da população estrangeira residente. Entre 2013 e 2023, o número de imigrantes legais em Portugal mais do que duplicou, mas a taxa global de criminalidade não acompanhou essa evolução. Pelo contrário, em 2023 registou-se uma redução de cerca de 4% nos crimes participados às autoridades.

Além disso, segundo dados da Polícia Judiciária e do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), apenas cerca de 15% dos suspeitos identificados em crimes registados em território nacional são estrangeiros, um valor inferior ao peso que os imigrantes têm atualmente na população total (cerca de 18%). Ou seja, os imigrantes cometem proporcionalmente menos crimes do que os cidadãos nacionais.

A confusão entre correlação e causalidade

A crença de que mais imigração significa mais crime resulta muitas vezes de uma confusão entre correlação e causalidade. É verdade que algumas zonas urbanas com maior concentração de imigrantes também registam níveis de criminalidade mais altos, mas esses níveis devem-se sobretudo a fatores socioeconómicos, como a pobreza, o desemprego, a exclusão social ou a falta de oportunidades.

Imputar o crime à nacionalidade ou à origem é ignorar que a criminalidade é um fenómeno estrutural, não étnico. Tal como um português em situação de vulnerabilidade económica pode recorrer a atos ilícitos, o mesmo pode acontecer com um estrangeiro, mas não por ser estrangeiro e sim por viver em condições sociais adversas.

O papel dos media e das redes sociais

Os media desempenham um papel determinante na forma como o público percebe a segurança. Estudos do Observatório da Imigração mostram que os crimes cometidos por estrangeiros têm maior cobertura mediática e são frequentemente noticiados com destaque na origem dos suspeitos, ao contrário do que sucede quando o autor é português. Nas redes sociais, essa amplificação ganha contornos ainda mais distorcidos, alimentando narrativas de medo e desconfiança que pouco têm de factual.

O contributo real da imigração

Portugal enfrenta atualmente uma crise demográfica e uma escassez de mão de obra em setores da construção à saúde, da agricultura à restauração. Os imigrantes não são um problema, são parte da solução. Contribuem para o crescimento económico, pagam impostos e asseguram o funcionamento de serviços essenciais.

Ignorar estes factos e associar imigração a criminalidade é não só injusto, mas perigoso. É alimentar preconceitos que dividem e fragilizam a coesão social.

O que os números realmente mostram é que a criminalidade é um fenómeno multifatorial e que a imigração, longe de a agravar, coincide com um período de estabilidade e até de melhoria na segurança pública.

Combater desinformação é uma responsabilidade coletiva. Fazer jornalismo com base em factos, e não em receios, é o primeiro passo para um debate público mais justo, informado e humano.

Fonte da imagem de capa: Diário de Notícias

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Rita Luís

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