Cada esquina dobrada, cada rua percorrida, cada estrada atravessada ou cada banco de jardim onde outrora nos sentámos, guardam vivências silenciosas que um dia já se derramaram pela calçada, pelos riachos dos jardins ou pela madeira já desgastada. Madeira corroída pelo peso da memória e do passar do tempo.
Bancos, quietos e firmes, são mais do que simples objetos. São testemunhas serenas de pessoas que se encontram ou se despedem, de estações que mudam, de momentos que mesmo sendo breves, deixam marcas subtis, mas eternas.
Há algo nestes bancos que nos convida a parar. Talvez seja a calma com que enfrentam o passar das estações, talvez o silêncio que os envolve ou a serenidade com que observam o mundo. Neles reside uma lição discreta sobre o tempo: a importância de viver o presente, de ver e sentir poesia no que é passageiro, de guardar no coração cada momento que passa.
Um banco de jardim não acolhe só quem se senta, acolhe quem o procura, ainda que, muitas vezes nem se aperceba disso. Pessoas passam, emoções, narrativas invisíveis também. Recordações de quem já fomos e construções de quem um dia gostaríamos de vir a ser.
Um banco abraça memórias felizes, instantes de introspecção ou silêncios carregados, que se misturam com a brisa da primavera, o canto dos pássaros e onde pousam as folhas secas do outono. É num banco que se encontram olhares que não se cruzam, mãos trémulas que esperam o contacto de outra, corpos cansados que procuram repouso.
Há quem, sentado, sonhe para além das árvores, e há quem deixe lágrimas, absorvidas pelo musgo, eternizando-se como que um segredo guardado para sempre. Serve de palco para conversas inesperadas entre desconhecidos, confidências partilhadas entre amigos, promessas sussurradas entre namorados ou até a descoberta do mundo aos olhos de uma criança.
E é nesses momentos simples que se revela o verdadeiro sentido do carpe diem: aproveitar o agora. Na serenidade do instante, no sabor de um café partilhado, num sorriso trocado com um desconhecido, ou na paz de uma pausa breve.
É a sensação de voltarmos para casa depois de um dia passado com as pessoas que amamos, que nos entendem e com quem temos uma ligação genuína. É sentir que seis horas pareceram meia-hora.
Este é o privilégio de vivermos e é a razão do corroer dos bancos.
Aproveitar o dia, como o banco transparece, não é correr atrás de feitos grandiosos, mas descobrir beleza no que é comum. É estar inteiro em cada gesto, mesmo nos mais simples. É sentar-nos, olhar, sentir. O banco, alheio à pressa da vida, convida-nos a parar, a aproveitar o momento, a ouvir com atenção, a rir até nos doer a barriga, a descansar sem culpa. Guarda as gotas de memória que escorrem pelas fendas da madeira, sorrisos, desabafos, esperas, transportando-as num arquivo nunca cheio, mas também nunca vazio.
Há dias em que tudo parece igual, mas é aí que se revela o verdadeiro desafio de viver: encontrar o extraordinário dentro do banal. Descobrir poesia no quotidiano, sentir o corpo acordar com o aroma do café, deixar que os pensamentos nos acompanhem enquanto o autocarro segue o seu caminho, ouvir uma música que nos toca, um livro que nos prende, uma conversa que nos aquece. Carpe diem manifesta-se nestes pequenos instantes, invisíveis, mas que nos constroem.
O silêncio e a saudade apoderam-se na revivência da memória, mas o banco enriquece naquilo que é o privilégio de viver. Seja nas boas recordações ou nas menos boas, no que conquistámos, mas também no que deixámos para trás. Porque até nos dias em que tudo corre mal há algo a interiorizar: uma força que nem sabíamos que tínhamos, uma calma e uma paciência que cresce devagar.
E assim, entre estas sombras e estações, o banco vai recolhendo fragmentos da humanidade. E nós, distraídos, talvez nunca reparemos que, ao nos sentarmos nele, também deixamos uma parte de nós à espera de ser relembrada.
Ciclos começam, terminam, mas o banco fica sempre à espera, recolhendo essas pequenas presenças. Seja num jardim, num parque, num paredão à beira-mar. Há sempre um banco que nos chama, um convite para vivermos com consciência, para aceitarmos o dia, mesmo quando ele não é perfeito.
A vida não se mede em grandes feitos, mas sim com pequenas presenças. Não pelas viagens que fazemos, mas pelos olhares que trocamos. Não pelo que recebemos, mas pelo que conquistamos. Não pelos dias cheios, mas pelos dias vividos com sentido.
Aproveitar o dia é deixar que ele nos mude, mesmo que pareça igual a todos os outros. Porque nenhum dia é realmente igual. Nós mudamos, o mundo muda, tudo muda, aos poucos. E é nesse movimento discreto que a vida se faz sentir. Quando um dia olhamos para trás e já se passaram anos sem termos dado conta. Crescemos, amadurecemos e aprendemos a valorizar aquilo que antes nem notámos que lá estava.
Por isso, quando pensarmos em carpe diem, talvez devêssemos lembrar-nos disto: não precisamos de viver um dia inesquecível todos os dias. Basta vivê-lo com consciência, com presença, com gratidão pelas pequenas coisas porque, no fim, é isso que fica: a certeza de que a vida não passou por nós, porque nós sentimo-la.
A vida pode ser finita, mas as vivências são-nos intrínsecas e, se um dia nos esquecermos, o banco é infinito. No entanto, o mais importante a reter nesta vida não são os grandes feitos, mas aquilo que fica deste passeio. A veracidade da vida.
E a “poesia, beleza, romance, amor… é por isto que vale a pena vivermos”.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representado as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Madalena Cardoso
Editado por: Leonor Oliveira


Deixe um comentário