Porque o Cabo da Roca é o destino que todo imigrante deve ir

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Extremo ocidental da Europa, ponto turístico é uma lembrança da coragem que é necessária para deixar a sua terra natal e aventurar-se em mares desconhecidos

Em um domingo despretensioso, visitei o Cabo da Roca. Até chegar lá, pouco sabia sobre o ponto mais ocidental da Europa. Desconhecia até a placa com a famosa frase do poeta Luís de Camões. Sequer imaginava a beleza da vista ou o quanto ela seria disputada por centenas de turistas, com seus celulares e máquinas fotográficas dispostos a capturar o melhor ângulo. Mas, se ao chegar, não sabia da importância de passar pelo local; ao sair, reconheci que esse é um destino essencial para que todo imigrante visite e recorde da coragem que é necessária para sair do seu próprio país.

O Cabo da Roca fica localizado a cerca de 40 quilômetros da capital de Portugal, na freguesia de Colares, no Município de Sintra e no Distrito de Lisboa. É possível chegar de carro, facilmente, e também de transporte por aplicativo ou até mesmo utilizando o transporte coletivo, por meio dos comboios da Carris e Carris Metropolitana. As linha de Sintra e Azambuja são as mais utilizadas. Há restaurantes e lojas de souvenirs, o que já faz valer o passeio.

Há também o farol do Cabo da Roca, erguido em 1772 e que ainda está em funcionamento. Atualmente, é o segundo mais antigo do litoral português e fica construído em cima de falésias com mais de 140 metros de altura. A vista é um dos pontos mais bonitos do local e é possível fazer visitas pelo interior, basta agendar e verificar a disponibilidade.

Farol do Cabo da Roca. (Foto: Carolina Marasco)

Mas, o que mais me fez apreciar a visita a esse que é um dos destinos mais emblemáticos de Portugal – não apenas pela vista – foi a experiência interna que o local me provocou. Lá, misturada com diferentes nacionalidades e pessoas de tantas idades, disputando local na fila para fazer a foto na famosa placa com a frase de Camões, “Onde a terra acaba e o mar começa”, me vi diante da imensidão do Atlântico. Me senti um pouco mais próxima das Américas, de onde vim, e ao mesmo tempo entendi a distância imensurável em que estava do local que sempre chamei de casa.

Onde a terra acaba e a coragem começa

Todo imigrante possui motivos para sair de seu país. Seja pela oportunidade de buscar mais qualidade de vida, seja por um convite de emprego ou, simplesmente, seja pelo espírito aventureiro. Vinda do Brasil, cheguei em Portugal guiada pela vontade de estudar na Universidade de Lisboa e, principalmente, pelo tão famoso sonho de morar na Europa.

Concluí meu segundo mês morando em solo português diante de muitas dúvidas, algumas lágrimas e várias reflexões. Uma delas surgiu, justamente, no Cabo da Roca. Quanta coragem é necessária para sair do último grão de chão firme que conhecemos para cruzar o oceano em busca do que não conhecemos? Lá, diante do local mais perto do Brasil em que eu poderia chegar, ainda estando dentro da Europa, entendi que mais do que ser corajoso, o imigrante precisa também aprender a conviver com o medo natural do processo de mudança.

Conhecer o Cabo da Roca, portanto, é uma lembrança de que é possível sim, atravessar oceanos e aventurar-se no desconhecido. Com ou sem coragem. Com ou sem medo. É possível chegar e apreciar as belezas de uma nova cultura. Ou, é possível voltar de onde partimos. O nosso porto, seguro ou não, está no mesmo lugar. Por isso, recomendo que todo imigrante passe por lá para, quem sabe, também refletir.

Mas, para todo o imigrante em processo de aptação, aqui vai um recado: para descobrir o que vem depois de um oceano, é preciso abandonar o último pedaço de terra. É preciso deixar para trás o que conhecemos. E se você, agora, já deu esse passo, já cruzou as tempestades de um oceano inteiro, que tal aproveitar a nova paisagem do chão desconhecido em que pisa?

A autora escreve em português do Brasil. 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Carolina Marasco

Escrito por: Carolina Marasco

Editado por: Margarida Simões

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