O Estado português decidiu proibir o uso da burca nas ruas. Sim, no mesmo país onde se pode andar de crocs com meias, de calções em janeiro e de pijama ao supermercado. O problema agora é, imaginem só, demasiado tecido.
O Governo lá achou que a liberdade precisava de um novo acessório: a proibição. Dizem que é “por segurança”, claro. Todos sabemos que a verdadeira ameaça à estabilidade nacional não é a inflação, os estágios não pagos ou o preço do café na cantina, mas sim uma mulher tapada a caminho do Pingo Doce.
Depois vem o argumento da “igualdade de género”. Este é o meu favorito. O Estado, que raramente se lembra de defender mulheres quando estas denunciam violência doméstica, de repente acordou feminista. Vai libertar as mulheres muçulmanas, desculpem o paradoxo, proibindo-as de sair à rua. É como dizer: “Tiramos-te o véu, mas também te tiramos o direito de escolher”. Uma espécie de igualdade que só existe se todas as mulheres se vestirem igual.
A verdade é que esta lei tem pouco a ver com igualdade e muito a ver com medo. Medo do diferente, do estranho, do que não se encaixa na fotografia da “sociedade moderna e tolerante”. Portugal adora dizer que é multicultural, até a diferença começar a usar roupa diferente. Gostamos da diversidade enquanto é exótica e colorida no Instagram, mas quando aparece no metro, preferimos olhar para o lado.
É fácil legislar sobre um pedaço de tecido quando não se entende o seu peso simbólico. Para algumas mulheres, a burca é imposição, mas para outras, é fé, identidade e escolha. O problema é que o Estado parece achar que sabe mais sobre liberdade do que as próprias pessoas que diz proteger. Assim, em nome da “emancipação”, retira-se a autonomia.
O mais irónico é que vivemos num país onde o corpo feminino continua a ser escrutinado, comentado e controlado. Seja por ser demasiado tapado, seja por estar demasiado à mostra. A diferença é que agora o moralismo veste fato, gravata e chama-se “segurança pública”.
No fundo, o que incomoda não é o véu, mas o espelho que nos obriga a encarar. Um espelho que mostra um Estado nu, desconfortável com a pluralidade, apressado em legislar sobre aquilo que não entende. Enquanto se discute quantos centímetros de tecido são aceitáveis em nome da liberdade, o país continua tapado, não por burcas, mas por hipocrisia.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: SIC Notícias
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Íngride Pais


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