Carmo Braga da Costa é vocalista e letrista dos Manila, uma banda com um estilo contemporâneo, mas que bebe de inspirações intemporais e que tem encantado dos mais velhos aos mais novos através da sua melodia rica, com vibes de soul e jazz, e uma letra que nos toca se tivermos o coração no sítio certo.

A banda surgiu no outono de 2022, mas foi só dois anos depois que lançaram o seu primeiro single, Domingo à Tarde, que veio dar origem ao seu primeiro EP, de mesmo nome.
O desacordo quis saber mais sobre os projetos, motivações e pensamentos da voz por trás desta banda que vai dar muito que falar, mas, principalmente, ouvir.
[MM] Carmo, seja muito bem-vinda aqui ao desacordo. Eu queria começar aqui com um pequeno enquadramento, que é perceber como é que todo o grupo se conheceu e de onde é que surgiu a ideia deste projeto.”
[CBC] Então, este projeto começou como um projeto a três há 3 anos atrás, numa escola de jazz, em que eu, o Gerardo e o Osa, ou seja, voz, teclas e baixo, nos conhecemos porque fazíamos parte do mesmo combo, nas aulas de iniciação, no workshop da oficina de iniciação ao jazz.
Todos trabalhávamos, todos trabalhamos ainda (…) mas estávamos a fazer um curso de jazz e nesse mesmo curso eu propus tocarmos uma música original que eu tinha feito, que se chamava Eurico, o Convo tocou a música e, no último dia, o Gerardo veio me perguntar se eu estava interessada em fazer parte de um projeto que ele e o Osa estavam a pensar começar. Perguntaram-me se tinha mais letras, ou se podia escrever mais letras em português e eu disse que sim. E começou a partir daí. Tirámos mais ou menos um ano e meio os três, fomos fazendo algumas músicas, mas as coisas avançaram um bocado devagar. Nós não tínhamos um estúdio, ensaiávamos em casa do Gerardo e, basicamente, ficávamos de conversa 80% do tempo, mas chegou uma altura em que decidimos levar as coisas mais a sério e começámos à procura de um baterista. Eu conheci o Zé num concerto de solidariedade que fizemos os dois, em que por acaso fomos postos na mesma banda, perguntei-lhe se ele tinha uma banda e se ele queria ter uma banda e ele veio tocar connosco (…) e quando percebemos que já tínhamos músicas suficientes para começar um projeto à séria decidimos procurar um guitarrista e o Gerardo já tinha tocado com o João Serra que é o nosso guitarrista, num projeto da André Verdugo, e perguntou se ele queria integrar a banda e pronto, ficámos assim. E a partir daí começaram as gravações do EP que agora já podem ouvir.”
[MM] E o nome da banda surgiu logo no início com vocês os três ou foi uma coisa que foi acontecendo com a entrada dos outros?
[CBC] Foi uma coisa que foi acontecendo, nós não tínhamos o nosso nome quando éramos os três. A gozar era Therapy Sessions, porque nós basicamente fazíamos sessões de terapia a três e depois tocávamos um bocadinho. Eventualmente, queríamos ter um nome melhor que não fosse em inglês. Como nós temos uma música que se chama Dalila, que é inspirada na minha bisavó Dalila, e gostávamos da sonoridade do “Lila”, fizemos um brainstorm (…) surgiram imensas ideias (…) a primeira foi Manila e foi o que acabou por ficar, mas tivemos muito tempo indecisos e não tínhamos nome, às tantas eu disse “Malta, eu digo aos meus amigos que tenho uma banda, perguntam-me o nome e eu não sei o que é que hei de dizer, portanto temos que avançar” e ficou Manila, não é uma história muito interessante.
[MM] O estilo da vossa banda é muito pessoal, mas ao mesmo tempo conseguimos perceber que bebe de várias inspirações, na arte de hoje é praticamente impossível não beber um bocadinho de cada coisa. Queria saber quais são, no teu caso, as tuas maiores referências na música.
[CBC] Nós gostamos desta pergunta porque a verdade é que nós temos todos backgrounds muito diferentes, não é uma banda clássica que são cinco amigos que se conhecem desde os dois quinze anos e que no fundo cresceram a ouvir a mesma música (…) eu ouvia em criança, no carro do meu pai, música brasileira: Bossa Nova, Tom Jobim e Vinícius [de Moraes]. Ouvia muito Xutos & Pontapés, Mafalda Veiga tudo o que era anos noventa e início dos anos dois mil em Portugal. (…) Hoje em dia, olhando e analisando o que temos feito, acho que vem muito daí. O que é que me influencia em termos de escrita? Acho que o que eu ouvi mais na minha adolescência, eu ouvia muito Lily Allen, acho que é das minhas maiores referências e gosto de escrever como ela escreve, o approach dela às letras é muito cómico, mas sério ao mesmo tempo. De resto, o que é que eu ouço? Eu ouço tudo, eu sou uma Swiftie, eu fui ver a Taylor Swift duas vezes no ano passado (risos), mas ouço de tudo.
[MM] É interessante dizeres que mesmo dentro da banda vocês têm vários estilos diferentes, porque eu acho que isso se nota bastante e que acaba por se transferir um bocado para o público também. Quem me apresentou a vossa banda foi o meu amigo Pedro, e quando ele me mandou o EP disse ”tens de ouvir isto, eu acho que está muito bom, está bem escrito, está bem feito” mas logo a seguir referiu “eu acho que não é bem o teu tipo mas quero que me digas o que achas” isto porque nós temos estilos um bocado diferentes, ambos gostamos de rap mas eu vou um bocado mais para a bossa nova e MPB enquanto ele é mais fã de rock pesadão, por exemplo. No entanto, eu depois fui ouvir as músicas e adorei. Achas que, pelo facto de vocês terem uma grande colheita de influências, conseguem agradar a vários tipos diferentes de pessoas?
[CBC] Primeiro, obrigada por teres gostado e obrigada ao teu amigo por te ter mandado o nosso EP, beijinhos para o Pedro (risos). Eu acho que isso é uma coisa que acontece (…) nós tentamos agradar a nós como músicos e gostamos de fazer músicas que nós gostamos, e todos os estilos que tu falaste são estilos que cada um da banda gosta, o nosso baixista, o Osa, adora rock pesadão, o Zé adora rock progressivo, o Gerardo e eu gostamos mais de jazz, o Serra gosta mais de pop, R&B e rap. Eu adoro rap e nós agora estamos a começar um projeto novo, um álbum talvez e vai ter ainda mais esse tipo de influências. Eu acho que isso é que acaba por agradar a toda a gente, ou seja, nós não fazemos de propósito, (…) mas acaba por acontecer porque nós todos somos diferentes e gostamos de coisas diferentes. Sai de forma natural!
[MM] Vocês já partilharam que o vosso objetivo era contar histórias sonoras e eu achei um conceito interessante porque descreve na perfeição o que uma música deve ser, uma simbiose perfeita entre a letra e a melodia. Por isso, gostava de saber como é que funciona o vosso processo de produção de uma música nova, o que é que vem primeiro?
[CBC] Normalmente, o que vem primeiro é um dos instrumentos (…) e eu estou em casa, sento-me sozinha, ouço a música e começo logo a cantar por cima, tipo improviso, gosto que a letra e a melodia saiam ao mesmo tempo. Depois vou editando a letra se for preciso, pode-me sair uma coisa natural ou, se eu não estiver tão inspirada, começo a pensar em temas. (…) por exemplo, o Domingo à Tarde foi uma música em que eu decidi improvisar logo. (…) É engraçado porque as músicas parecem muito pessoais, mas também são um conceito (…) por exemplo, nas Ruínas eu quis escrever uma música que fosse uma breakup song, mas que tivesse um spin engraçado e positivo, ou seja, “nós acabámos mas foi forte e deixámos aqui quase um museu que as pessoas podem ir visitar”, é assim que eu penso um bocado nas coisas.
Depois de ter a voz e esse primeiro instrumento mais ou menos feito, que acaba por ser o primeiro verso e o refrão, mandamos para o resto da malta, juntamos todos e o resto dos instrumentos vão compondo à volta. Nós tivemos uma sessão de composição no domingo passado, por exemplo, e foi exatamente dessa forma. Foi uma música que o Gerardo mandou, eu fiz a letra em um dia, mandámos por whatsapp para o grupo, juntámos, fizemos o resto e ontem tivemos uma sessão de produção em que terminámos a música.
[MM] Eu tenho uma pergunta sobre a música a mulher, que é a minha preferida do EP, porque toca num ponto interessante que é: se há alguém que eu preciso de agradar esse alguém sou eu. E a letra que fala sobre uma mulher, expande-se de tal forma que qualquer pessoa se possa identificar com a música. Eu gostava agora de perceber qual é a tua visão sobre a música, tu sentes que a liberdade para desagradar é o que nos permite mantermo-nos pessoas sinceras e verdadeiras em relação a nós próprios ou a música é apenas um desabafo de alguém que já agradou muita gente e está farto de o fazer?
[CBC] Eu acho que é mais o segundo ponto, mas gosto de acreditar que o primeiro também está lá. Esta música foi um desabafo que eu escrevi, aliás, esta aqui até pode ser considerada a nossa música mais antiga porque foi feita quando éramos um projeto a três (…) eu escrevi os versos e o refrão dessa música depois de uma entrevista de trabalho, eu trabalho em marketing e em startups há quase oito anos, e foi uma entrevista clássica “precisamos de alguém que queira dar tudo, dar o litro e trabalhe não sei quantas horas por semana” e eu fico um bocado irritada porque não gosto nada desse conceito. Sinceramente acho que as pessoas podem fazer um bom trabalho sem se descolarem, claro que às vezes também é preciso (…) mas pronto, foi um desabafo.(…) porque eu acho que a música também é muito sobre gerações e a geração atual, de girlbossing, em que a mulher tem de ser ótima trabalhadora, mas também tem de ir ao ginásio, e também tem de ser engraçada, tem de ser querida, boa namorada e inteligente, mas também não pode ser convencida. Acho que é uma grande pressão e às vezes não me apetece fazer nada.
[MM] Falaste há pouco sobre projetos futuros, há algum single, EP ou álbum a caminho?
[CBC] Acho que é a primeira vez que estamos mesmo a falar sobre isto e em princípio, vai ser em 2025. Pelo menos vai haver música nova não sei se será um EP ou um álbum. Estamos a tentar que seja um álbum, depende da duração, mas sim, estamos a fazer músicas novas. Quem já nos viu ao vivo, já as ouviu, porque nós nos arriscamos um bocado nesse aspecto, mal temos uma música acabada, adicionamos à nossa setlist. E estamos todos muito entusiasmados com isto, por várias razões, acho que há uma evolução muito grande nossa como banda. Se pensarmos na forma como a banda foi formada, a maioria das músicas deste nosso primeiro EP foram feitas antes de termos o João Serra, que é o nosso guitarrista da banda e ele acrescenta uma riqueza de composição super importante que se vai notar nessas músicas novas. E acho que também é mais uma atualidade na forma como estamos a compor e na forma como eu estou a escrever, porque o nosso primeiro EP foi um conjunto de canções que vieram quase há dois anos atrás, é uma junção de várias coisas, o que é ótimo, mas acho que este vai ser mais atual. Eu estou a adorar as coisas novas que estamos a fazer e acho que vocês vão gostar também!
[MM] Agora numa perspetiva mais pessoal, tens algum feat de sonho, tanto como Manila ou até mesmo a solo?
[CBC] Há imensos artistas com quem eu gostava de trabalhar de várias maneiras diferentes, eu adorava escrever para outros artistas também, escrever é o que eu mais gosto na música, escrever e cantar ao vivo. Gostava de fazer talvez com o B Fachada, gosto muito dos Capitão Fausto também, no espectro do Pop sou super fã da Bárbara Bandeira. Não sei, mais uma vez há muitas influências (…) há imensas pessoas com quem se pode colaborar era difícil dizer que não
[MM] E é isto Carmo, vou tentar ir com o meu amigo Pedro a um desses concertos em Lisboa, de resto muito obrigado pela companhia e pela conversa!
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Marco Morgado
Editado por: Matilde Bruno


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