Experiência D2D: Aldeias de Crianças SOS

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Numa entrevista a Giovanna Brito explorámos como é a experiência de ser uma recrutadora DoorToDoor na organização Aldeias de Crianças SOS. A jovem brasileira conta-nos os seus desafios ao longo de um dia de trabalho, o impacto que a sua nacionalidade exerce nas pessoas que encontra e, sobretudo, a satisfação que sente ao saber que está a ajudar centenas de crianças e jovens.

Fonte: Margarida Simões

Para começar gostaria que me explicasses um pouco sobre o que são as Aldeias de Crianças SOS, para aqueles que ainda não estão familiarizados com a associação.

GB: As Aldeias de Crianças SOS são uma organização não governamental que existe para ajudar crianças e jovens que sofreram algum tipo de maus-tratos, foram negligenciados ou até mesmo abandonados por seus próprios pais ou familiares. O seu intuito não é o de retirar essas crianças dos seus pais, em alguns casos, mas sim de construir um ambiente mais familiar para que essas crianças possam se sentir seguras e amadas. Mas às vezes não é possível reunir os jovens com os seus familiares, então são acolhidos nas próprias aldeias. Existem três aqui em Portugal, Cascais, em Vila Nova de Gaia e outra na Guarda.  Este é o maior projeto das aldeias, mas contém muitos outros.

Onde te encaixas dentro desta associação?

GB: Eu trabalho no DoorToDoor, que consiste em bater nas portas das casas das pessoas para explicar o que é a organização, levar xingos e recrutar pessoas para se tornarem sócios das Aldeias de Crianças SOS. Estes sócios são pessoas que dão valores monetários que sejam pequenos e confortáveis, por débito direto mensalmente para ajudar a organização a crescer. Também existe o FaceToFace e o VoiceToVoice, também são áreas para recrutar pessoas, mas são de formas diferentes. No F2F recrutam-se pessoas na rua e no V2V é por chamadas.

Fonte: Margarida Simões

Para ti, qual é que achas que é a parte mais desafiante deste trabalho?

GB: Falar com portugueses. No geral, é mais difícil falar com portugueses.

Portanto, o facto de seres brasileira leva a que alguns portugueses tenham uma reação mais negativa quando falam contigo?

GB: Impacta muito a forma como falam comigo. Deixa eu te contar um exemplo: Às vezes quando eu estou a abordar com um colega português eu sinto que eles não precisam explicar o projeto em si, basta falarem muito por alto e conseguem ainda assim fazer um sócio. Sendo que eu e os meus colegas brasileiros fazemos abordagens mais completas, a explicar bem o projeto, e não querem ser nossos sócios. Fico muito chateada com essas coisas. 

Achas que esses desafios dependem das zonas em que estão a trabalhar?

GB: Claro, em São Marcos tem muitos brasileiros e é um local que me corre muito melhor. Mas também depende muito das pessoas, eu acho. Por vezes abordamos bairros sociais e é bom porque as pessoas entendem muito mais sobre este tipo de assuntos e são mais solidárias. Ao contrário de zonas que parecem mais “ricas”, onde as pessoas ficam do gênero: porra, quem são vocês? Eles praticamente não querem saber. Apesar de terem as posses para ajudar, não querem fazer isso. E os que menos têm, são os que mais querem ajudar a gente.

No final de um dia de trabalho, vais para casa com um sentimento gratificante? No final das contas o vosso trabalho tem a missão de ajudar muitas crianças e jovens. Sentes um pouco desse peso nas costas?

GB: Vou para casa estressada. Eu não vou mentir, não é?  A verdade é que estou sempre estressada, mas adoro o meu trabalho. Não sinto um peso nas costas. Eu acho que quem devia sentir um peso nas costas são as pessoas que não ajudam.

Fonte: Margarida Simões

Por fim, pensas que as pessoas que estão por detrás das portas acabam também por ter um certo impacto em ti?

GB: Já chorei por causa disso, porque as pessoas são muito más às vezes. É um trabalho que se calhar emocionalmente esgota um bocadinho. Por isso que a maioria das pessoas não fica quase nem um ano nesses trabalhos, vão-se embora depois de 3 meses ou 4 meses por não aguentarem a pressão. Mas depois encontras algumas pessoas tão simpáticas, tão dispostas a ajudar que fazem valer a pena continuar neste trabalho. Isso e saber que se está a ajudar crianças, jovens e famílias que estão em estado de vulnerabilidade.

Fonte: Instagram das Aldeias de Crianças SOS

Apesar da organização já existir em Portugal há 60 anos infelizmente ainda não tem a devida visibilidade que um projeto como estes deveria ter. Atualmente o Estado português apenas contribuí com cerca de 23% do apoio financeiro para esta associação e esses valores não são suficientes para apoiar estes jovens e crianças. Estima-se que a cada 10 minutos uma crianças é negligenciada neste país, está na altura de mudarmos essa narrativa.

Este artigo é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Margarida Simões

Editado por: José Pereira

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