Numa entrevista a Giovanna Brito explorámos como é a experiência de ser uma recrutadora DoorToDoor na organização Aldeias de Crianças SOS. A jovem brasileira conta-nos os seus desafios ao longo de um dia de trabalho, o impacto que a sua nacionalidade exerce nas pessoas que encontra e, sobretudo, a satisfação que sente ao saber que está a ajudar centenas de crianças e jovens.

Para começar gostaria que me explicasses um pouco sobre o que são as Aldeias de Crianças SOS, para aqueles que ainda não estão familiarizados com a associação.
GB: As Aldeias de Crianças SOS são uma organização não governamental que existe para ajudar crianças e jovens que sofreram algum tipo de maus-tratos, foram negligenciados ou até mesmo abandonados por seus próprios pais ou familiares. O seu intuito não é o de retirar essas crianças dos seus pais, em alguns casos, mas sim de construir um ambiente mais familiar para que essas crianças possam se sentir seguras e amadas. Mas às vezes não é possível reunir os jovens com os seus familiares, então são acolhidos nas próprias aldeias. Existem três aqui em Portugal, Cascais, em Vila Nova de Gaia e outra na Guarda. Este é o maior projeto das aldeias, mas contém muitos outros.
Onde te encaixas dentro desta associação?
GB: Eu trabalho no DoorToDoor, que consiste em bater nas portas das casas das pessoas para explicar o que é a organização, levar xingos e recrutar pessoas para se tornarem sócios das Aldeias de Crianças SOS. Estes sócios são pessoas que dão valores monetários que sejam pequenos e confortáveis, por débito direto mensalmente para ajudar a organização a crescer. Também existe o FaceToFace e o VoiceToVoice, também são áreas para recrutar pessoas, mas são de formas diferentes. No F2F recrutam-se pessoas na rua e no V2V é por chamadas.

Para ti, qual é que achas que é a parte mais desafiante deste trabalho?
GB: Falar com portugueses. No geral, é mais difícil falar com portugueses.
Portanto, o facto de seres brasileira leva a que alguns portugueses tenham uma reação mais negativa quando falam contigo?
GB: Impacta muito a forma como falam comigo. Deixa eu te contar um exemplo: Às vezes quando eu estou a abordar com um colega português eu sinto que eles não precisam explicar o projeto em si, basta falarem muito por alto e conseguem ainda assim fazer um sócio. Sendo que eu e os meus colegas brasileiros fazemos abordagens mais completas, a explicar bem o projeto, e não querem ser nossos sócios. Fico muito chateada com essas coisas.
Achas que esses desafios dependem das zonas em que estão a trabalhar?
GB: Claro, em São Marcos tem muitos brasileiros e é um local que me corre muito melhor. Mas também depende muito das pessoas, eu acho. Por vezes abordamos bairros sociais e é bom porque as pessoas entendem muito mais sobre este tipo de assuntos e são mais solidárias. Ao contrário de zonas que parecem mais “ricas”, onde as pessoas ficam do gênero: porra, quem são vocês? Eles praticamente não querem saber. Apesar de terem as posses para ajudar, não querem fazer isso. E os que menos têm, são os que mais querem ajudar a gente.
No final de um dia de trabalho, vais para casa com um sentimento gratificante? No final das contas o vosso trabalho tem a missão de ajudar muitas crianças e jovens. Sentes um pouco desse peso nas costas?
GB: Vou para casa estressada. Eu não vou mentir, não é? A verdade é que estou sempre estressada, mas adoro o meu trabalho. Não sinto um peso nas costas. Eu acho que quem devia sentir um peso nas costas são as pessoas que não ajudam.

Por fim, pensas que as pessoas que estão por detrás das portas acabam também por ter um certo impacto em ti?
GB: Já chorei por causa disso, porque as pessoas são muito más às vezes. É um trabalho que se calhar emocionalmente esgota um bocadinho. Por isso que a maioria das pessoas não fica quase nem um ano nesses trabalhos, vão-se embora depois de 3 meses ou 4 meses por não aguentarem a pressão. Mas depois encontras algumas pessoas tão simpáticas, tão dispostas a ajudar que fazem valer a pena continuar neste trabalho. Isso e saber que se está a ajudar crianças, jovens e famílias que estão em estado de vulnerabilidade.
Apesar da organização já existir em Portugal há 60 anos infelizmente ainda não tem a devida visibilidade que um projeto como estes deveria ter. Atualmente o Estado português apenas contribuí com cerca de 23% do apoio financeiro para esta associação e esses valores não são suficientes para apoiar estes jovens e crianças. Estima-se que a cada 10 minutos uma crianças é negligenciada neste país, está na altura de mudarmos essa narrativa.
Este artigo é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Margarida Simões
Editado por: José Pereira


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