Com cheque ou sem cheque: os jovens em cheque

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Vivemos em tempos em que a consciência sobre a saúde mental parece ganhar força, especialmente no que diz respeito aos jovens. Depois de uma pandemia que nos obrigou a estar confinados e a restringir os nossos contactos e relações sociais, os indicadores e notícias sobre saúde mental vão dando claros sinais de que há cada vez mais pessoas com algum tipo de problema de saúde mental e a recorrer a ajuda.

Só para se ter uma ideia, nunca se receitaram tantos antidepressivos em Portugal como em 2023. É uma subida de 80%, comparando com uma década atrás. Deve haver com certeza quem afirme que se começou a dar mais atenção à saúde mental, daí o aumento. Os mais céticos dirão que isto é um reflexo do quão preocupante o problema da saúde mental se está a tornar, e eu, pessoalmente, tendo a inclinar-me mais para esse lado. Os governos por este mundo fora, de maneira a combater o problema, desenvolvem mecanismos e implementam medidas de modo a que haja o menor número possível de cidadãos que sofra com problemas como depressão e ansiedade, que podem, por sua vez, levar a consequências trágicas. Se falarmos de jovens, o foco deste texto, o suicídio figura como a segunda maior causa de fatalidade. O bem-estar e a felicidade da população são necessários para uma sociedade mais equilibrada e próspera num mundo cada vez mais desequilibrado onde só prosperam uns quantos. É neste sentido que têm vindo a trabalhar os Governos por este mundo fora e a União Europeia, mas nenhum com o caso de sucesso que se está a registar entre os jovens estudantes do nosso país…

Foi anunciado que os estudantes do Ensino Superior, a partir do dia 30 de setembro, poderiam aderir ao “Cheque-Psicólogo”, um programa ao abrigo do governo, resultante de um protocolo assinado com a Ordem dos Psicólogos que permite à comunidade estudantil a possibilidade de acederem gratuitamente a 12 consultas de psicologia, sendo que duas são de avaliação e diagnóstico. Um programa que veio para resolver os problemas crescentes de saúde mental de todos os estudantes, sem discriminação alguma no seu acesso, excetuando só (e apenas só) os seguintes casos: Alunos com necessidades educativas, com comportamentos aditivos, com diagnóstico de perturbação psicótica ou bipolar, ou de perturbação da personalidade, pensamentos suicidas e sintomas com duração superior a um ano e meio.

O leitor deverá talvez estar a perguntar-se: “Como é que isto reduz o problema e melhora a situação do bem-estar mental dos estudantes portugueses?” Ora, é bastante simples. Eliminando da equação a população estudantil que se encontra nesta situação, bem capaz de ser ainda uma porção significativa, negando-lhes essa ajuda, a percentagem de casos de jovens estudantes com tendências suicidas, bipolares, com comportamento de adição e com necessidades educativas específicas e entre outros irá drasticamente reduzir e nunca mais se ouvirá falar de tais casos. “Mais um problema resolvido! Próximo!”. Leiam livros de autoajuda, façam meditação, arranjem um Life Coach, trepem uma montanha, algo do género, sei lá… Não venham é chatear os Psicólogos do Ensino Superior com os vossos problemas se faz favor! Isso é demasiado! Muitos menos se este for o vosso único recurso porque não têm dinheiro suficiente. Pode ser?

Os pais e professores podem estar descansados. Teremos finalmente uma comunidade estudantil animada e mindfulness. Porque afinal de contas, não interessa se as residências universitárias não chegam e se o apoio das bolsas também não. “Como é que isso poderá afetar o bem estar do aluno se ele por acaso até tem direito ao cheque-psicólogo? E como assim não resolve todos os outros problemas estruturais? Não acredito, é impossível!”. Os senhores estudantes irão ser felizes a pagar rendas por quartos mais ou menos ao preço de um salário mínimo (sem despesas incluídas, calma), com humidade e sem janela (com vista privilegiada para o Tejo), a receber tanto como poderiam estar a receber por trabalhos sem qualificações para aquele país para onde os primos e os tios foram procurar uma vida melhor. E por último, serão felizes e conformados com um futuro onde terão de fazer mil e um malabarismos para poder criar uma família, pagar as contas, a casa, o carro e a comida, tudo isto, claro, se der para sair da casa dos pais. Isto em princípio não há de ser grande motivo de stress e ansiedade para os jovens, dado que “apenas” 64% dos jovens são afetados mentalmente por questões financeiras, de acordo com uma pesquisa recente da empresa farmacêutica alemã Merck. Uma gota no oceano, portanto.

“Tudo se resolve”. É sempre o que apraz ao mais típico português de dizer, e uma maneira, de certa forma, de manter a calma perante a tempestade. Há quem diga que rir é o melhor remédio. Espero que isso realmente seja verdade. Tanto para as pessoas abrangidas pelo critério de exclusão (muitas delas já habituadas a serem esquecidas), como para aqueles que têm direito a um psicólogo, mas que não têm direito a sonhar com uma vida estável e com um futuro risonho como jovens neste país. Por muito bem-intencionada que seja a iniciativa, saúdo parcialmente, pois ainda não há psicólogo, creio eu, capaz de mudar as políticas de uma Nação. Oxalá que rir seja mesmo o melhor remédio. Para muitos, a realidade parece mais ser “rir para não chorar”.

Este artigo é da pura responsabilidade da autora/do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Gil Tavares.

Editado por: Marta Ricardo.

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